Saudações, guerreiros da Luz
Ao longo dos anos, tivemos muitos
cenários clássicos de fantasia adaptados a D&D, com diferentes níveis de
qualidade e sucesso. Apesar de hoje existir um forte sentimento de temor
apreensão quando ouvimos dizer que um cenário/história seria adaptada para
D&D, há 20 anos, tal notícia era recebida com alegria e expectativa. E na
era do D&D 3e, um dos melhores suplementos externos produzidos foi precisamente
uma dessas adaptações. The Wheel of Time d20, lançado em 2021, adapta a
clássica obra de Robert Jordan ao sistema trazendo de forma muito competente a
saga criada pelo autor.
Em uma breve contextualização, assim
como Tolkien, James Oliver Rigney Jr. (nome original do autor, pois Robert
Jordan é um pseudônimo) era também um soldado, e por isso, conhecia a guerra e
tudo o que ela abrange em primeira mão. Curiosamente, ele era também jogador de
AD&D, e em algumas cartas, explicava como usava o jogo para ensinar aos
filhos sobre a importância da responsabilidade, lealdade e principalmente que
tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) gera consequências. Assim, apesar de
seu livro não ter sido escrito tendo D&D como base (diferente dos livros de
Record of Lodoss War), a obra de Robert Jordan possui indiretamente uma ligação
natural com o jogo.
Em The Wheel of Time d20 temos novas
classes básicas, talentos e classes de prestígio que substituem muito do
material original do Livro do Jogador para trazer o mundo das Terras Ocidentais
às mesas de D&D, e o faz de modo realmente competente; apesar do elevado
nível de poder de alguns personagens na série, as classes são feitas com “o pé
no chão”, tendo em vista um mundo de fantasia medieval, e não um filme de
super-heróis.
Em relação às classes, temos
resumidamente o seguinte:
|
Algai'd'siswai |
Guerreiros do deserto, especializados em mobilidade, combate sem
armadura e no uso das lanças curtas. |
|
Armsman |
Combatentes profissionais, treinados em armas, armaduras e técnicas
militares. |
|
Initiate |
Canalizadores que receberam treinamento formal, como os integrantes de
instituições dedicadas ao Poder Único (fonte de magia no cenário). |
|
Noble |
Personagens que combinam influência social, liderança, educação e
capacidade de atuação política. |
|
Wanderer |
Sobreviventes versáteis, especialistas em perícias, discrição,
astúcia. |
|
Wilder |
Canalizadores que desenvolveram seus poderes sem treinamento formal,
muitas vezes enfrentando os riscos de uma habilidade que não compreendem. |
|
Woodsman |
Exploradores, caçadores e combatentes habituados a ambientes
selvagens. |
Notamos aqui referências claras às
classes básicas de D&D, e todas elas funcionam muito bem. Não apenas aqui,
mas também em qualquer mundo de campanha. O Armsman e o Algai'd'siswai
demonstram como duas classes com uma função geral semelhante (lutar na linha de frente) podem
representar tradições muito diferentes. O primeiro se encaixa em exércitos,
guardas e companhias mercenárias; o segundo expressa a cultura guerreira aiel
(povo beduíno no cenário), na qual técnicas, vestimentas, disciplina e valores
sociais fazem parte da identidade do personagem. O Noble procura dar uma
identidade mecânica à influência social e à liderança, aproximando o personagem
do jogo político que permeia os romances.
A distinção entre Initiate e Wilder representa
duas trajetórias radicalmente diferentes no uso da magia: o primeiro representa
a pessoa submetida a treinamento, disciplina e doutrinação institucional,
enquanto a manifesta uma capacidade extraordinária sem necessariamente possuir
os meios para controlá-la. O Wanderer representa o clássico andarilho, espião e
informante, que dependendo da situação, é de inestimável valor, capaz de fazer
e resolver aquilo que nenhum outro personagem conseguiria. O Woodsman incorpora
perfeitamente o arquétipo clássico de Aragorn e Montolio, de forma até melhor
que o ranger de D&D. Em suma, são classes bem desenhadas e equilibradas,
que trazem à mesa de jogo a riqueza da obra literária, mas que também podem ser
usadas em qualquer campanha.
Outro ponto que me chamou a atenção
na época foram as classes de prestígio. Particularmente, nunca gostei dessa
mecânica porque se não há muito cuidado e critério, elas se tornam apenas
formas de deixar um personagem mais poderoso. Por isso, em minhas mesas
combinei com meu grupo que elas não seriam usadas, exceto em casos muito
específicos onde houvesse um ganho real em autenticidade e caracterização do
personagem. As classes de prestigio apresentadas aqui conseguem fazer
especificamente isso, e para minha surpresa, sem elevar de forma considerável o
nível de poder dos personagens. Algumas como o Commander, Blade Master, Warder
e Gleeman são riquíssimas em termos de caracterização de personagem e também
podem ser usadas em qualquer tipo de campanha.
O sistema traz ainda uma série de
talentos muito interessantes, que também podem ser usados em qualquer tipo de
campanha, e um sistema novo de conjuração de magias que, em partes, também
poderia ser aproveitado fora do cenário. E apesar de não ter a riqueza de raças como outros cenários de RPG (elfos, anões, halflings, gnomos, meio -orcs...) aqui as etnias humanas são muito bem descritas e diferenciadas (semelhante ao que é feito em Lord of the Rings 5e), algo que agrega imenso valor à customização de personagens. E também pode ser usado com adaptações em outros cenários. Outra mecânica da qual gosto muito aqui é a ideia de bônus de Defesa (semelhante ao antigo Star Wars d20), onde, quanto mais experiente é o personagem, melhor ele consegue aparar e se esquivar de golpes. Algo que realmente faz sentido.
De forma geral, é um excelente livro,
que, com ótima escrita e excelente arte, traz de forma competente e respeitosa um universo de fantasia muito rico e
ainda permite que a maioria de seus elementos possa ser usada plenamente em
campanhas caseiras ambientadas em outros cenários. Resumindo, é um trabalho com
valor para os fãs da série A Roda do Tempo*, para aqueles que não
conhecem a obra e até mesmo para aqueles que conhecem a obra, apreciam certos elementos mas não são necessariamente fãs dela.
Uma vez que o livro não é mais
produzido ou comercializado e está fora de catálogo há mais de 15 anos, estou compartilhando o mesmo a título de preservação cultural, para
quem desejar conhecer melhor este grande trabalho. Basta entrar neste PORTAL.
* Apenas para não deixar claro, estou me referindo à série de
LIVROS, não à fracassada “Roda de Gomorra” produzida e agora cancelada pela AMamon.













