Saudações, guerreiros da Luz
Como já conversamos em pergaminhos
anteriores, o paladino foi uma das figuras que mais sofreu com a crescente
subversão que tomou conta de D&D nas últimas décadas. A classe, que
anteriormente era sinônimo mandatório de honra, virtude e justiça, hoje é
trazida a uma nova geração de jogadores como “guerreiros abençoados” (não mais
sagrados, “abençoados”) que podem agir como bem desejarem e possuindo um poder
absurdamente grande. Com a queda dos Alinhamentos, os novos “paladinos” não
precisavam mais ser Leais e Bons conforme as regras, o que abriu brecha para
uma legião de maníacos egoístas e mimados, como Mighty Nien bem mostrou com seu
“paladino pirata”. Segundo os desenvolvedores, o alinhamento Leal e Bom era
muito “restritivo”, e para reforçar esse brilhante argumento, se embasavam em
situações completamente esdrúxulas, que na melhor das hipóteses, retratavam o
clássico “Leal e Estúpido” vivido por jogadores e mestres amadores que não
sabiam o que estavam fazendo (em boa parte, porque nunca foram devidamente
orientados). Além disso, argumentavam ainda que a obrigatoriedade do
alinhamento tornava “todos os paladinos iguais e superficiais”, o que é um
imenso engodo.
Nisso, este importante pilar foi
removido, e os “paladinos” de D&D começaram cada vez mais a se parecer com
guerreiros genéricos com poderes exagerados de luz e sem nenhum conteúdo. Neste
contexto, sinto que é importante relembrar o que é um verdadeiro paladino,
assim como fizemos com o clérigo semanas atrás.
Ironicamente, os melhores paladinos
da fantasia não vieram de D&D, de cenários como Forgotten Realms ou
Greyhawk. Eles vieram precisamente do antigo Warcraft e dos primeiros anos de
World of Warcraft; todos eram “leais e bons”, como pedia o antigo AD&D, de
onde o cenário puxou muito de sua inspiração. Mas mesmo pertencendo à mesma
Ordem, eles não eram, de forma alguma, iguais. Todos eram personagens
complexos, honrados e justos, mas cada um possuía particularidades, virtudes e defeitos que os
definiam como indivíduos. Digo que isso é uma ironia porque desde os últimos
anos de D&D 3e, a WotC tem tentado forçar elementos estéticos e
inapropriados de World of Warcraft para dentro de D&D, mas deixou
completamente de lado aquilo que realmente poderia ser aproveitado: Ótimas
histórias, raças com backgrounds riquíssimos e excelentes caracterizações de
classes.
Neste pergaminho trarei, de forma
resumida, quatro dos maiores paladinos humanos do cenário. Para que o
pergaminho não fique muito extenso, não detalharei a história deles, me focando
apenas no nosso ponto de interesse aqui, que é a questão da personalidade de
cada um. Mas caso o assunto seja de interesse de alguém, recomendo que busquem
saber mais sobre esses personagens na Wikia de World of Warcraft em inglês.
Realmente vale a pena. Antes de começar, um detalhe importante: Neste cenário,
o poder dos paladinos emana da Luz Sagrada, uma força que (originalmente)
representa e personifica os ideais do Bem, Justiça e Proteção.
1. Uther the Lightbringer: O Arauto da Ordem
Uther, como o Primeiro Paladino,
acreditava que a Luz Sagrada estava inseparavelmente ligada
à lei, ao Estado e à Igreja. Para Uther, um Paladino era
um cavaleiro rigorosamente disciplinado, que deveria sempre agir
dentro dos limites da autoridade e dos dogmas estabelecidos.
Para Uther, o Bem Maior poderia ser verdadeiramente alcançado por meio da ordem
e de estruturas que endossassem os ideais de justiça. Por isso, sua fé era
fortemente baseada nessa visão pragmática e objetiva de que o Bem emanava de
uma Ordem justa.
À primeira vista, algum tolo poderia
afirmar que Uther representa o clássico “Leal e Estúpido”, que quando vê um
inocente sendo punido, fica em choque, não age e deixa o inocente sofrer para
cumprir a lei (como Lady Aribeth the Neverwinter, e tantos outros paladinos
ruins de Forgotten Realms). No entanto, este não é, nem de longe, o caso.
Apesar de ser um idealista e legalista, como homem justo, ele coloca a justiça
em primeiro lugar. Tanto que em uma ocasião em que o príncipe de seu reino
ordenou que ele massacrasse inocentes contaminados por uma perigosa praga, a
resposta de Uther foi: “Você não é meu rei, garoto, e eu não obedeceria ordem
tão absurda nem mesmo que fosse”. Essa é a postura de um verdadeiro paladino
diante de uma ordem injusta; ele não se rebelou, nem deteve o príncipe (teria
sido melhor se tivesse feito isso, mas enfim, essa é uma discussão extremamente
delicada e que é feita a décadas), mas ele não executou uma ordem que entendia
como injusta e contrária à sua bússola moral.
2. Turalyon: o Zelote Absoluto
Turalyon enxerga a Luz não
como um código moral terreno, mas como uma força cósmica
de verdade e guerra absolutas. Seus mil anos lutando pelo
cosmo contra forças demoníacas transformaram sua ideologia em uma forma
de cruzada total e intransigente. Para Turalyon, o universo é
binário. Existe a Luz e existe o Inimigo. Por isso, mesmo sendo um
homem honrado, está disposto a utilizar medidas extremas,
interrogatórios severos que beiram a tortura quando lida com demônios e
cultistas e não é contra começar uma guerra total se isso servir ao
bem cósmico maior da Luz. Para ele, a Luz e os Naaru, seres celestiais
que segue são inquestionáveis, e apesar de ser sempre cortês e respeitoso,
mesmo quando lidando com inimigos (que não estejam ligados a demônios), ele
entende que está em uma cruzada eterna, e se porta dessa forma. Assim, Turalyon
personifica o ideal do paladino leal e inflexível, eternamente em guerra.
3. Tirion Fordring: O Unificador
Tirion acreditava que a Luz
não estava condicionada à política ou regras institucionais —
ela se condicionava apenas à honra, compaixão e o caráter
da alma. Em uma determinada ocasião, que inclusive o colocou em um
confronto direto com Uther, Tirion se recusou a entregar como prisioneiro um
orc que salvou sua vida após um duelo. Tirion foi expulso da ordem de paladinos
a qual fazia parte e havia ajudado a fundar, mas percebeu que manteve seus
poderes, reforçando sua convicção de que a Luz respondia à caráter, honra e
senso de justiça, e não a instituições, por mais corretas que estas fossem.
Este tipo de postura permitiu que ele
reunisse diversas raças e facções inimigas para que, juntos, combatessem um
grande mal que assolou o mundo em sua época. Apesar de manter enorme respeito
por códigos legais e pela própria estrutura que o rejeitou, ele personifica a
ideia de que o Bem é alcançado por meio da justiça, honra e compaixão.
4. Bolvar Fordragon: o Estadista e Protetor
Como Alto Comandante do mais
poderoso reino humano de sua época e, posteriormente, Lorde
Regente do mesmo, a concepção de Bolvar sobre a Luz esteve
sempre diretamente ligada à preservação de seu reino e à proteção
de seu povo.
Ao contrário de Uther
(que respondia à ordem espiritual e cavalheiresca de sua Ordem)
ou de Turalyon (que respondia ao mandato cósmico dos Naaru),
Bolvar servia ao trono e ao povo. Ele precisava lidar
com intrigas da corte e nobres corruptos enquanto tentava
impedir que seu reino se despedaçasse internamente.
Bolvar possuía
uma rara combinação de determinação de ferro e profunda
gentileza. Ele atuou como uma espécie de pai e mentor para o
jovem Príncipe na ausência de seu pai, tentando ensiná-lo empatia
e paciência, em vez de apenas habilidades marciais. Ele equilibrava o
pesado martelo do comando militar com uma profunda e
silenciosa compaixão pelo povo comum.
No
entanto, ao
contrário de Tirion, que transcendeu a política de lados opostos em
guerra para formar uma cruzada neutra, Bolvar era um defensor
ferrenho dos humanos e seus aliados, abrindo mão disso apenas em situações
verdadeiramente extremas. Por isso, ele personifica o ideal do cavaleiro e do “rei”
paladino; um homem guiado por um forte senso de justiça, que vivia e lutava
pelo seu povo.
Em suma,
todos os quatro são Leais e Bons, mesmo que em algum momento de suas vidas,
suas ações não entrassem em perfeita harmonia com esse ideal. O que é
perfeitamente válido e correto, uma vez que não são “robôs”, são indivíduos com
virtudes e defeitos, que com frequência precisam fazer escolhas difíceis e
tomar decisões impossíveis. A diferença fundamental entre eles seria:
- Uther: Percebe a Luz por meio da Lei e da Ordem.
- Turalyon: Percebe a Luz por meio da Guerra e do Desígnio
Cósmico.
- Tirion: Percebe a Luz por meio da Honra, Compaixão
e Vontade Individual.
- Bolvar: Percebe a Luz por meio do Dever, da Proteção e da
Responsabilidade Política.
Todos são paladinos de grande valor. Todos são Leais e Bons. Mas todos apresentam diferenças entre si, diferenças que inclusive já os colocarem em choque e os colocariam ainda mais se todos estivessem ativos exatamente nos mesmos períodos de tempo/espaço. Apesar disso (ou, talvez, precisamente por conta disso), todos são excelentes paladinos.
Apenas
para fechar o pergaminho, um rápido comentário sobre World of Warcraft: Com
certa frequência critico de forma pesada as ações da WotC para aproximar
D&D do modelo de MMO que World of Warcraft criou. Mas isso não é uma
crítica ao MMO em si, mas à insistência tola em destruir D&D para tentar
ganhar dinheiro o transformando em algo que ele não é. Eu mesmo joguei Warcraft
III (depois fui buscar o I e II) e joguei muito World of Warcraft por anos,
durante as expansões iniciais. E admito, eu não jogava para fortalecer meu
personagem, mas para ver a história e conhecer mais sobre o mundo e seus
personagens. Depois dos primeiros anos, o jogo infelizmente começou a padecer
por conta de péssimas decisões narrativas e a já tão conhecida
subversão ideológica, de modo que depois de uma expansão chamada Cataclismo, eu
parei de jogar, e quando a história do jogo foi arremessada no ralo para enaltecer
um antigo vilão que vendeu a alma por poder e matar/desmoralizar todos os
pilares morais do cenário, abandonei o jogo por completo. Mas a história deste
jogo no início era realmente excelente, e vale ser conhecida.







