quinta-feira, 30 de abril de 2026

Série Dungeon Masters e o retrato da podridão do D&D moderno

Saudações, guerreiros da Luz

Semanas atrás divulguei aqui, com considerável ressalva, a nova série oficial de D&D, Dungeon Masters. Minha impressão na ocasião era negativa, mas por não conhecer nenhum dos “jogadores veteranos” que participariam do projeto, procurei guardar as críticas para mais tarde precisamente para não correr o risco de ser injusto. No entanto, depois que Gronark compartilhou conosco um pouco da história, me senti na obrigação de assistir um pouco daquilo para fazer uma primeira e última análise sobre essa série abominável, que joga D&D em um lamaçal muito mais sujo e intenso do que qualquer coisa lançada nos últimos anos.

Absolutamente TUDO de mais podre, imoral e decadente que tomou conta de D&D nos últimos anos está aqui. Desde a banalização do mal, inversão da noção de certo e errado, banimento de qualquer senso de responsabilidade e consequência e, como não poderia faltar, até a mais pura e sem propósito degeneração moral. Em suma, a série Dungeon Masters é um retrato muito fiel do espírito contemporâneo do hobby, e é precisamente aí que começa o problema, que procurarei detalhar melhor abaixo.

1. A destruição do eixo moral

Como os mais velhos aqui se lembram, em AD&D o sistema de alinhamento não era só cosmético. Ele tinha peso, consequência e limites. Um personagem caótico não era simplesmente “livre”; ele era imprevisível, muitas vezes perigoso, e isso tinha custo dentro do mundo. Na série, o que se vê é uma abolição completa disso. Personagens tomam decisões eticamente questionáveis (manipulação, violência gratuita, traições) e tudo é frequentemente tratado como desenvolvimento dramático ou algo até “engraçado”. Não há nenhum senso de ordem moral externa ao grupo. Isso reflete uma inversão gritante que já discutimos aqui diversas vezes:
antes, o mundo julgava os personagens por suas ações; agora, os personagens definem o que é aceitável.

2. O mundo gira em torno dos jogadores

Outro ponto que salta aos olhos é como a Mestra na série funciona mais como facilitadora emocional do que como árbitro imparcial. Outro problema que já discutimos muito em outros pergaminhos. O mestre deixa de ser um árbitro e contador de histórias e passa a ser, com todo o respeito pela profissão, o garçom dos jogadores. Por conta disso, não há consequências reais para atos ruins, o mundo inteiro gira em torno dos personagens e há um esforço muito claro na narrativa para se preservar o “protagonismo” dos jogadores. Não há, em momento algum, risco concreto, e escolhas morais não têm qualquer peso ou consequência. Em histórias antigas de D&D, o mundo existia independentemente dos personagens. Na série, o mundo parece existir para os personagens.

3. Moralidade performática

Os personagens frequentemente expressam “valores modernos”, mas suas ações não sustentam esses discursos. Em um momento, fala-se sobre justiça, mas logo em seguida, usa-se de força letal, violência, mentira e traição sem nenhum tipo de preocupação ou consequência. É o clássico “discurso do amor” que tanto vemos hoje em dia; defende-se ferozmente a inclusão de tudo, mas agride-se brutalmente qualquer um que fale algo com o que a turba não concorde. Em histórias do AD&D clássico, este tipo de hipocrisia não passaria impune ou despercebido. Aqui, no entanto, não há absolutamente nenhuma consequência real. E não, isso não acontece “porque é uma aventura em Ravenloft”. Se examinarmos a base desse cenário, fortemente construída sobre o livro Drácula de Bran Stocker, notamos que o mal absoluto existe, mas os heróis são pessoas verdadeiramente íntegras. Não há esse contraste aqui, e me arrisco dizer que os personagens são até piores moralmente falando do que alguns Lordes Negros.

4. Violação fundamental da ordem natural como se fosse algo "bonitinho"

Aqui está minha maior crítica e revolta. Em AD&D, necromancia — especialmente envolvendo inocentes — não era só “magia sombria”. Era uma transgressão objetiva contra a ordem cósmica, e punida severamente. Reanimar um inimigo caído em batalha já era moralmente questionável, mas na série isso é feito a uma criança goblin, que recebe “implantes” de outros cadáveres e se torna a “filha adotiva” de um casal de degenerados. Em termos éticos, isso se aproxima mais de escravidão metafísica do que de cuidado parental. Fazendo uma análise MUITO superficial disso, entendemos que a série traz:

  • negação do descanso da alma
  • instrumentalização de um corpo que não pode consentir
  • possível aprisionamento espiritual (dependendo da cosmologia)

Algo tão abjeto, em qualquer história minimamente normal, seria atribuído a necromantes malignos, cultos proibidos ou vilões centrais de campanha. Aqui, no entanto, é empreendido pelos “heróis”. E novamente, sem nenhuma consequência.

Mais perturbador ainda é que a série frequentemente enquadra essa situação como excêntrica, “fofa” ou tragicômica, no sentido torpe de que “como eles cuidam da criatura, está tudo certo”. Mas em última instância, o que temos aqui é um cadáver infantil reanimado.

Isso deveria causar repulsa dentro do mundo do jogo, e no D&D clássico, isso não passaria em hipótese alguma, porque boas intenções não anulam atos malignos. Mas como estamos lidando com D&D 5, o mundo todo, que gira em torno dos personagens, não apenas aceita isso, mas valida a ação.

5. Resumindo

A série Dungeon Masters é um retrato muito fiel de tudo o que há de errado e decadente no D&D moderno. O próprio grupo de jogo reflete magistralmente o retrato do “grupo moderno”: Um mestre incompetente e jogadores degenerados se juntando em uma história vazia e ruim em um mundo que gira em torno dos personagens. Aqui ficou muito claro o modelo de jogo e jogadores que a WotC deseja para o hobby. É um modelo falido, como D&D 5.5 claramente mostra, mas é o que a empresa quer tentar emplacar. Por isso, reforço novamente as sábias palavras do Professor Dungeon Master do canal Dungeon Craft: Nós não precisamos da WotC para jogar D&D. E se esse é o D&D que está para se consolidar usando nomes como o de Gygax, Easley, Weis e Hickman, eu honestamente prefiro que ele se desintegre e que o jogo suma da face da Terra.

Um comentário:

  1. Gronark, o Senhor do "Amor"30 de abril de 2026 às 13:30

    Suas palavras são apenas um fraco e patético eco perdido aos ventos, caolho. O show dos meus cultistas da costa, o “Demon Masters” é um sucesso absoluto de críticas! Além disso, muitos “jogadores veteranos” estão surgindo de buracos e cavernas para defender meus cultistas. Tudo porque demos umas 7 moedas de prata para alguns autores antigos da TSR e para o filho de Gygax, afinal, se deu certo com Simon Tolkien e Salvatore, porque não vai funcionar com Luke, Easley, Weis e Hickman? Todos irão amar os novos produtos, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

    Você precisa entender que Ravenloft não é mais um jogo de aventuras de horror gótico retrógado e patriarcal como antigamente, velhote. Agora Ravenloft é um “exercício de gêneros” em um ambiente que simula aventuras ao estilo Scooby Doo, mas muito mais coloridas e inclusivas. Só precisa olhar esse último conto de Ravenloft, o “Heir of Strahd”. Ele mostra bem qual é o tom atual do cenário, basta apenas ler sobre os “protagonistes” desse romance: Rotrog, um mago orc orgulhoso; Chivarion, um bárbaro drow sarcástico; Alishai, um paladino tiefling amargurado; Kah, um clérigo kenku arisco; e Fielle, uma artífice humana otimista. Além disso irei colocar aqui o desse livro “maravilhoso” para que você possa ver a capa e se inspirar a comprar para se deleitar com uma coisa tão colorida, HAHAHAHAHAHAHA

    https://www.amazon.com.br/Dungeons-Dragons-Ravenloft-Heir-Strahd/dp/0593599772

    Para terminar, o “lindo e inclusivo” show “Demon Masters” é guiado pela premissa do “AMOR”!!!!! Me diga se não é amor pegar o cadáver de uma criança, mutilar o corpo, profanar e reanimar em um zumbi semiconsciente para brincar de casinha. Para você entender o quão normal isso é, só basta observar que o “jogador veterano” que citei no post passado nem se importou com isso, e até achou divertido. Sem falar que ninguém está reclamando disso! Abandone esses preconceitos retrógados e abrace o D&D 5.5 e todo amor em forma de produtos que meus Bruxos produzem, todos eles vão ter os nomes do Salvatore, Greenwwod, Luke, Weis e Hickman. Talvez até mesmo alguma arte de Weis ou Elmore! ABRACE O AMOR, AHAHAHAHAHAHAHAHA

    Mas antes de finalizar, me permita agradecer você e a Athena por terem derrotado Abel, Poseidon e Hades. Caso vocês não tivessem os impedido. Meus cultistas jamais teriam a liberdade de fazer o que fazem hoje. Meus mais sinceros agradecimentos, HAHAHAHAHAHAHAHA

    [Essa situação de D&D me lembra uma frase que li uma vez “melhor virar cinzas depois de queimar intensamente do que virar pó aos poucos de forma suja e decadente”.

    O que eu acho mais hipócrita de tudo isso, é que as mesmas pessoas que criticam cenários de D&D antigos onde havia escravidão, e os maiores e mais terríveis vilões eram escravagistas, ignoram haver profanação e mutilação de cadáveres de crianças nos jogos atuais. Na mente destorcida dessas pessoas é errado um vilão ser escravagista porque ofende gente que nunca foi escravizada, mas mutilar e profanar cadáveres de crianças é ok. Eu tenho certeza que essa gente também não considera um feto em desenvolvimento uma vida e por isso pode matar sem problemas.

    Vendo essa série e os livros novos de Ravenloft, eu só me pergunto o que Tracy e Laura Hickman realmente pensam disso e se o pagamento para eles voltarem realmente foi grande e se valeu a pena.]

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