Saudações, guerreiros da Luz
Algumas vezes comentei nesse espaço
minha admiração pela obra nipônica Demon Slayer. A animação, arte, personagens
e cenas de luta são impecáveis, mas o que mais me chama atenção nessa história
é a moral da mesma. Muzan Kibutsuji, o vilão da trama, era um ser humano
doente, fraco e mesquinho, e a história mostra o quanto ele foi se degradando
moralmente conforme sua enfermidade avançava. Quando ele foi “salvo” por um
elixir misterioso que o transformou em uma espécie de “arqui-demônio”, ele
adquiriu imenso poder, e usou isso para trazer miséria e desgraça para a vida
de todos.
Seus descendentes foram amaldiçoados
com uma doença terrível, que os debilitava brutalmente e os matava por volta
dos vinte anos, como punição dos deuses por todo o mal que Muzan causava. Como
forma de tentar destruir Muzan e barrar este mal, eles criaram a tropa dos
Caçadores de Demônio. Na história narrada nos mangas e animes, o líder da tropa
é Kagaya Ubuyashiki, descendente direto de Muzan e, como tal, amaldiçoado com
uma doença muito pior do que a do próprio Muzan. Mas ainda assim, ele é ético, altruísta
e empático. Assim como o personagem principal da série, o jovem Tanjiro Kamado,
que lidou com tragédias inimagináveis, mas ainda assim, jamais perdeu o bom
coração. Esta história ensina, acima de tudo, que a vida é difícil, e muitas
vezes não é justa. Coisas ruins acontecem, mesmo com pessoas boas. Mas por pior
que tenha sido sua vida, por mais que você tenha sofrido, nada justifica o mal.
Nada justifica se transformar em um monstro apenas porque a vida não lhe deu o
que você desejava ou achava que merecia.
No entanto, não é essa visão que é
passada a crianças no ocidente. Dias atrás, por curiosidade assisti ao segundo
trailer do novo filme Avengers Doomsday, simplesmente porque gosto muito do
personagem Steve Rogers, e vi que o trailer contava a história pregressa de
Victor Von Doom, o vilão da história. Para a surpresa de ninguém que acompanha
histórias de HQ, a origem dele foi alterada e ele de início era bom e gentil,
mas depois de perder a mãe, se transformou no mostro que é hoje, tudo por causa
de trauma. Ao contrário do que acontece na cultura oriental, de vinte anos para
cá, nós tivemos no ocidente um movimento muito forte de relativização e negação
do mal. Se repararem bem, não existem aqui mais vilões “maus”; apenas pessoas
traumatizadas que cometem atrocidades inimagináveis, mas que o fazem apenas
porque alguém os fez sofrer antes. Da mesma forma, a inversão de valores se
aplica também aos heróis. Os heróis, a menos que sejam mulheres masculinizadas
ou membros de certas minorias intocáveis, sempre são retratados como pessoas
que ou tiveram uma vida muito fácil, escondem segredos sórdidos, são
completamente idiotas ou estão lutando pelo o que é certo apenas por questões
de ego. Por isso, personagens como Capitão América, que são o exemplo de
pessoas que vêm de um contexto precário, mas que fazem algo de bom no mundo por
conta de seu forte senso de caráter, foram alvos de tantos ataques nos últimos
anos. Não funcionou, a essência do personagem sobreviveu a tudo o que foi jogado contra ele, e mesmo a contragosto da companhia, ele precisou ser reinserido novamente nas histórias.
De qualquer modo, isso não apaga o fato de que no ocidente, as pessoas (e o que mais me
preocupa, as crianças) são ensinadas pela mídia que o mal tem uma explicação
para ser como é, e que devemos aprender a ser tolerantes. Por outro lado, o bem, o certo e o justo, nunca é aquilo que parece ser.
Sim, é uma doutrinação verdadeiramente demoníaca, mas é algo que tomou conta do
ocidente nas duas últimas décadas e que tem se espalhado pelo mundo todo. Mesmo
hoje, que a podridão e hipocrisia da agenda Woke foi escancarada, e em que cada
vez mais pessoas pedem pela volta dos verdadeiros heróis e valores perdidos,
essa subversão de valores ainda tenta se infiltrar em toda parte, mesmo, por
vezes, precisando se esconder um pouco mais.
Mesmo que o universo de super-heróis não seja de seu interesse, recomendo que assistam a este breve vídeo compartilhado por Gronark e outro abaixo que trata do mesmo episódio. Eles mostram como obras que supostamente abandonaram a agenda Woke ainda trazem traços perigosos dela, mesmo que de forma sutil. No âmbito do RPG, cabe a nós combater esse tipo de inversão de valores em nossas mesas e apoiar as histórias que ainda trabalham as temáticas do bem e mal sem a ideia subversiva de que bem e mal são apenas “pontos de vista”, e que heróis de verdade (entende-se aqui boas pessoas dispostas a colocar o outro em primeiro lugar) são retrógrados e piores do que os “vilões”.

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